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Mercado para filósofos é restrito ao campo acadêmico

Publicado em 25/05/2006 - 00:01

Se Deus criou o mundo, quem criou Deus? Antes de tudo, o que havia? O que é o nada? Qual o sentido da vida, afinal? Se essas são algumas perguntas que te fazem perder a noite de sono, você deveria conhecer o curso de Filosofia. Se as discussões existenciais, sociais, políticas ou culturais fazem parte do seu dia-a-dia, talvez você tenha um pouco de Platão, Sócrates ou Marx e se identifique com uma carreira de muita pesquisa e reflexão.

O curso de Filosofia normalmente se organiza com matérias voltadas para a história da Filosofia antiga, medieval, moderna e contemporânea. Há dois tipos de graduação: Bacharelado - para os interessados em fazer cursos de pós-graduação, mestrado, doutorado e trabalhar com pesquisas - e Licenciatura - para quem pretende trabalhar como professor de Ensino Médio.

O campo de trabalho para os filósofos é bem restrito. O maior espaço está no setor acadêmico, atuando como professor. "Nesse momento, a Filosofia voltou a ser obrigatória no segundo grau e não há licenciados o suficiente para dar aula. Essa carência de profissionais vai propiciar a abertura de muito cursos universitários na área, o que vai forçar as faculdades a contratar pós-graduados em Filosofia", explica o coordenador do curso de Filosofia da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Ricardo Monteagudo. Um professor universitário ganha em torno de R$ 45,00 a R$ 60,00 hora/aula, enquanto para o docente de Ensino Médio, esse valor cai para cerca de R$ 12,00 hora/aula.

"A área de Filosofia é muito acadêmica, na qual as pessoas podem ter sucesso lecionando. Mas para o mercado corporativo, confesso que não vejo um parâmetro muito bom nos dias de hoje", conta o consultor de Recursos Humanos do Grupo Prime Fernando Possari. Embora o espaço seja bastante limitado, o filósofo pode, sim, atuar fora do ambiente escolar. Pode trabalhar como crítico de arte ou política, em jornais, em assessoria política, com cinema e teatro, na diplomacia ou até em algumas empresas, que contratam filósofos temporariamente para redigir códigos de ética ou organizar e analisar dados.

Se o campo de trabalho é limitado, é preciso saber procurar as vagas. "O mercado de São Paulo é bastante receptivo. Há também as regiões Norte e Nordeste, que têm um mercado muito carente de professores universitários", afirma Possari. Ele explica ainda que, além da formação acadêmica, o filósofo precisa ser uma pessoa com bastante carisma, que saiba se comunicar bem, e que se mantenha extremamente atualizado com o mundo, em todos os âmbitos.

Monteagudo indica o curso para quem "sente necessidade de uma bagagem conceitual mais estruturada, de uma expressão artística menos ingênua e de uma compreensão mais complexa do mundo". Músicos e cineastas, por exemplo, costumam se identificar com a área. Para o coordenador da Unesp, o trabalho do filósofo é lecionar, contar histórias, despertar a vida cultural e a consciência de um país ou de uma época. Apesar da Filosofia ser uma atividade prazerosa, segundo ele, é também muito desgastante, já que as leituras são pesadas e exigem muita concentração.

O índice de desistência durante o curso é alto. Segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), no Brasil há 66 cursos de Filosofia, nos quais o número de matrículas gira em torno de 10.000 contra pouco mais de 1.000 concluintes. Monteagudo confirma que o índice de desistências é alto e os motivos que levam a isso são as dificuldades do curso e o mercado de trabalho restrito. "Nos cursos de Filosofia essa situação é bem típica. No fim do primeiro ano é que se junta o grupo que vai continuar até o final", completa. Clique aqui e conheça mais sobre o curso.

Confira abaixo os motivos que levaram um vestibulando, um graduando e um profissional a escolher o curso de Filosofia:

Idade: 17 anos

Luiz Philipe Rolla de Caux
Idade: 26 anos

Onde estuda: UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
Josiane Braga de Azevedo
Idade: 31 anos

Profissão: Cursando mestrado na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)
Erik Haagensen Gontijo
Vestibulando - Por que escolheu a profissão?
No começo eu ainda hesitava, por se tratar de um curso, digamos assim, não convencional. Mas depois percebi que não poderia ser outra coisa, que esse curso era o mais apropriado para mim. É uma questão de realização pessoal.
Graduando - Por que escolheu a profissão?
Esta é uma pergunta um tanto quanto desproporcional no que se refere à Filosofia. Em primeiro lugar, porque Filosofia não é profissão, é paixão. E segundo que ela não se escolhe, nasce com você este ímpeto de conhecer. Na verdade, o que aconteceu comigo foi procurar um curso que tentasse responder minhas perguntas, já que nunca pensei em fazer faculdade para 'ganhar dinheiro'.
Profissional - Por que escolheu a profissão?
Por pura inclinação e, é preciso dizê-lo, também por certa ingenuidade (ou idealismo, que é a mesma coisa). Pensei principalmente em me enriquecer culturalmente, acreditando que essa bagagem ideal pudesse abrir depois algumas portas interessantes no mundo real.
Vestibulando - O que espera do curso?
Estou ansioso. Sei que não é um curso fácil, mas estou bem disposto. Além das matérias, o ambiente universitário, ainda mais de um curso de Filosofia, me atrai fortemente.
Graduando - O curso corresponde às suas expectativas?
Entrei na faculdade em busca do saber, de desvendar estes mistérios que ninguém sabia me responder. Hoje estou perto de sair e "só sei que nada sei", para citar Sócrates. O que aprendemos na universidade é história da Filosofia e saímos de lá aptos a dar aulas, quando muito a pesquisar. A experiência que tenho é que a academia nos limita a aprender a pensar, enquanto o pensamento é livre.
Profissional - O curso correspondeu às suas expectativas?
É um curso necessariamente superficial, graças aos limites acadêmicos. Mas é um bom curso, se o aluno souber fazê-lo - ou seja, se não se restringir às aulas e aos textos indicados.
Vestibulando - Quanto espera ganhar depois de formado?
Não tenho nenhuma expectativa. A profissão de professor não é valorizada, quanto mais de professor de Filosofia. Não tenho uma perspectiva para depois da faculdade, provavelmente nem trabalhe na área, e sim no emprego que conseguir. Mas, futuramente, pretendo continuar estudando para poder lecionar em alguma universidade e, então, acredito que o salário deve ser razoável.
Graduando - Quanto espera ganhar depois de formada?
Depois de formado, ganha em experiência de vida quem teve a coragem de abrir seus braços para o filosofar. E já não podemos esperar nem remuneração adequada nem o respeito apropriado para um professor ou educador. É esta a função do aluno graduado em Filosofia: como na Grécia antiga, ele deve repassar o conhecimento.
Profissional - Quanto ganha?
Quando professor, meu salário no sistema federal era de aproximadamente R$ 350. Minha bolsa atual é de R$ 850.
Vestibulando - O que acha que vai encontrar de melhor na profissão?
Teria grande prazer em ensinar Filosofia, ter contato com pessoas interessadas. Também desbravar essa área fascinante.
Graduando - O que acha que vai encontrar de melhor na profissão?
A julgar a função do Filósofo acadêmico como educador, o que de melhor podemos encontrar além da satisfação de transmitir o conhecimento e ensinar a pensar com valor e senso critico, é a certeza de que se cada um fizer a sua parte, podemos mudar o mundo.
Profissional - O que acha de melhor na profissão?
A oportunidade - cada vez mais rara - de pesquisar e discutir qualquer campo do saber e fazer humanos: ontologia (natureza, indivíduo e sociedade), história, economia, ciência, tecnologia, estética, política, ética etc.
Vestibulando - O que você acha que vai encontrar de pior na profissão?
Nenhum reconhecimento, falta de emprego, preconceito, talvez.
Graduando - O que você acha que vai encontrar de pior na profissão?
Nas palavras de nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ensinar Filosofia ao povo 'é como dar pérolas aos porcos'. E esta visão preconceituosa não é privilégio deste homem público. A grande maioria da população compartilha desta idéia ou sequer sabe o que é Filosofia. Isto para mim é o pior, esta desvalorização por parte dos governantes e desconhecimento por parte da população. Um povo que sabe pensar escolhe melhor quem vai mandar em si.
Profissional - O que você acha de pior na profissão?
Como professores, não vendemos apenas a carne, mas também a alma. Geralmente somos obrigados a cumprir programas estranhos e de fachada, e somos obrigados a convencer os alunos que acreditamos em tais programas.
Vestibulando - Que análise você faz da profissão no Brasil?
Não tem grande tradição, mas os intelectuais acabam ganhando algum destaque, apesar que, geralmente, isso ocorre no campo da política.
Graduando - Que análise você faz da profissão no Brasil?
A Filosofia no Brasil vem se desenvolvendo lentamente, mas isto pode significar: devagar e sempre. Desde os tempos do Brasil Colônia tentam excluir a Filosofia, mas esta não tem pressa, esperamos o tempo necessário.
Profissional - Que análise você faz da profissão no Brasil?
O profissional deve ter, pelo menos, um doutorado, se quiser ter expectativas minimamente razoáveis de sobrevivência. Aos mestres, licenciados e bacharéis resta a disputa crua pelas migalhas. Isso porque a Filosofia não tem valor de mercado, e o status quo não demanda mais que uns poucos ideólogos (estes sim, muito bem pagos e escolhidos a dedo). As condições de trabalho são muito ruins e o retorno também. Francamente, é desolador e indignificante.
Vestibulando - Que dica você daria a estudantes que estão em dúvida entre Filosofia e outras áreas?
Pra pensar bem se é isso mesmo, porque é uma profissão ingrata. Tem que ter paixão.
Graduando - Que dica você daria aos estudantes interessados em Filosofia?
Se você procura a Filosofia pensando em um dia 'ganhar dinheiro' com isso, desista, pois este é o curso errado pra você. A Filosofia é para os que tem compromisso apenas com o saber filosófico, para quem tem isto na veia, a quem a alma curiosa pede sempre mais explicações e não se conforma com tudo que lhe contam. A Filosofia busca ter razão e não dinheiro. O sustento deve vir de suas atividades e talentos, no nível do conforto!
Profissional - Que dica você daria aos alunos interessados nesta profissão?
Primeiro, há uma escolha a ser feita, ainda que não explicitada: para quem você irá pensar? Pois quem quer que financie a Filosofia quer reproduzir um pensamento, geralmente o dominante. É preciso saber que a Filosofia sempre serve a alguém e a algo. A "crítica" dominante se esforça para esconder isto, e enquanto os alunos não caem no ringue do mercado, é fácil iludi-los. Há um critério, que jamais deve ser esquecido, para avaliar a Filosofia: a vida social. Segundo, não pensem que, durante ou após o curso, se tornarão grandes personalidades. A vaidade é irmã da ingenuidade, e são ambas muito comuns na academia e especialmente na Filosofia. No mundo real, frente ao mercado, lutando pela sobrevivência, a nossa grandeza é igual a de uma pulga. Terceiro, se possível, tenham um "plano B", para não virar estatística de "desemprego qualificado".

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